Partire è un pó morire, dice l’adagio, ma è meglio partire che morire.”

(Carrara, na peça teatral Merica, Merica)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O Apito da Fábrica de Tecidos

Tecelagem Enrico Dell"Acqua e Cia em cartão postal - 1900

O sino da igreja Matriz já não emitia o único sinal sonoro a ser reconhecido por moradores da cidade de São Roque, pequena localidade do interior paulista, situada a 58 km da capital, naquele final de século 19. Se antes o bimbalhar do sino anunciava a alvorada e as doze badaladas diziam que era hora de almoçar, agora o apito da fábrica de tecidos reorienta o despertar, o se alimentar, o se recolher. A cidade ainda adormecida sob a névoa da madrugada não sabia, mas a partir daquela manhã em 1890, a vida não seria mais a mesma. 

Os sons que inundavam o ar, quando o apito da tecelagem tocava, alardeavam não somente o progresso, os novos empregos, mas diziam em mensagem cifrada que a vida dos são-roquenses nos muitos dias que se seguiriam seria o reflexo do movimento dos teares nos grandes salões do prédio sustentado por colunas inglesas, coberto com telhas francesas, clareado internamente pela luz que se deixava conduzir através de vitrais venezianos entreabertos, e ancorado no cotidiano por onipresentes sanitários turcos de ferro fundido.

Os meses que antecederam a inauguração da tecelagem foram ao mesmo tempo mágicos e surpreendentes para os moradores da cidade. A magia era a expectativa da novidade que, além de tudo, mudava a paisagem da cidade apontando para o céu, entre as árvores da mata, com a imponente chaminé de tijolos à vista. Femininas, a mata, a indústria e a chaminé seriam cúmplices das histórias de cansaço, frio, fome, amor e sonhos, vividas entre as grossas paredes da fábrica de tecidos. O novo dia-a-dia da cidade surpreendia pela rapidez com que o imenso prédio, como nunca se vira na cidade, erguia-se na grande clareira aberta na mata, às margens do rio Aracaí, e pela inacreditável riqueza que transparecia em todo o material empregado na construção, transportado da Europa em navios, e que só chegava à cidade após uma longa viagem sobre os trilhos da ferrovia.

A estrada de ferro inaugurada em 1875 era o principal meio de transporte entre as cidades do estado. Na estação ferroviária, dos poucos degraus nascidos nas portas dos vagões dos trens de madeira, desciam passageiros que a cidade jamais avistara em tamanha quantidade: eram eles os imigrantes italianos que vinham suprir a falta de mão-de-obra treinada, que a cidade não possuía, para a jornada de trabalho na nova indústria.

Estrada de Ferro Sorocabana - Enio di Luigi, nanquim, 1997

Ao contrário daqueles que deixavam a Itália tendo como destino as fazendas de café espalhadas pelo estado de São Paulo, estes já chegavam cientes de que sua viagem terminaria na cidade cujo santo de devoção, como muitas na Itália, era São Roque. Em seu contrato de imigração rezava o compromisso de trabalhar na segunda tecelagem inaugurada no Brasil, por obra do industrial milanês Enrico Dell’Acqua. A Hospedaria de Imigrantes, no bairro depois denominado Brás, na capital, era a primeira parada de muitas famílias italianas que se tornariam operárias dessa tecelagem, em São Roque, após o desembarque no porto de Santos.
 
A longa travessia de navio de quase três meses, o enjôo causado pelo balanço do mar, as condições precárias de higiene numa apertada terceira classe, as doenças, as mortes, os corpos lançados ao mar, reforçando o sofrimento ainda recente de deixar para trás a terra natal e com ela, amigos e parentes, só seria aliviada para os italianos pela vista da bela cidade, pequena, pousada num vale, rodeada de montanhas que em muito lembrava a Itália.

Mas, antes que isso acontecesse, haveria, ainda, o desconforto da viagem até São Paulo, os dias inseguros na hospedaria, onde encontrar-se com outros italianos, às vezes conhecidos, era sinal de esperança; e outra viagem de trem, mais rápida, porém assustadora, pela iminência da chegada ao desconhecido local de destino. 

Foram antes surpreendidos no encontro com negros, até então desconhecidos para os italianos, no cais do porto, e depois, com a diferença de costumes que se revelava muito marcante, logo de início, na alimentação.
Carregando pesadas malas, vestindo grossas roupas escuras, pés inchados pelo cansaço da longa caminhada, tendo nos braços crianças adormecidas, os anônimos italianos a quem a cidade daria nova identidade, desciam a rua da Estação, aberta anos antes por interferência do Barão de Piratininga, ilustre figura da cidade, junto ao governo da província, para ligar a estação ferroviária ao centro da cidade.

Ao cruzar a ponte sobre o rio Carambeí, a grande massa de italianos era recebida por uma pequena multidão de moradores divididos entre a curiosidade e a compaixão. Alguns já se dispunham a ajudar com as malas, outros iam com a intenção de aproveitar para comercializar ou mesmo oferecer espontaneamente algum alimento aos recém chegados. A modesta população local, distante dos habitantes dos poucos e abastados casarões, se fazia hospitaleira na recepção aos imigrantes italianos.

A proximidade com o Largo da Matriz revelava as primeiras e escassas construções coloniais do centro da cidade. A igreja Matriz, na verdade uma simples capela se comparada às igrejas atuais, com sua pequena torre lateral, tendo sob ela a porta de entrada e ladeada por janelas de madeira, caiada, dando destaque ao telhado escuro, era desde o início um ponto de referência e apoio aos novos habitantes da cidade.

Largo da Matriz - Enio di Luigi, nanquim, 1997

O primeiro impacto foi o do idioma. Comunicar-se era difícil até com os italianos provenientes de outras localidades. Assim, no começo, a tecelagem revelava-se uma verdadeira Torre de Babel, na mistura de diversos dialetos da terra de Dante ao lado da língua portuguesa. Mas nada que uma boa torrente de legítimos gestos italianos não resolvesse com o tempo.

Para os italianos que chegavam a São Roque, uma nova vida se traçava, com a percepção de outros costumes, a adaptação a um clima tropical, embora a cidade, por sua altitude, oferecesse durante parte do ano, temperaturas parecidas com as de algumas cidades da Itália. 

Para a população local tudo se pintara de novo. Se os ares da abolição dos escravos e da República renovavam as esperanças em todo o país, e um novo grupo político se formava em São Roque, composto por abolicionistas e republicanos, a inauguração da tecelagem e a chegada dos italianos mudariam o panorama da cidade em pouco tempo.

Em São Roque de Outrora, o professor Joaquim Silveira Santos, que presenciou esse momento, revela suas impressões:
Um formigueiro humano mourejava de sol a sol, no empenho de concluir tudo no mais breve prazo; e mal coberto e assoalhado o prédio, começou a instalação do maquinário e, em breve São Roque ouvia jubiloso o prolongado e alvissareiro apito chamando os operários para a fábrica.”
“Estou ainda a ver nossa terra no alvoroço daqueles primeiros tempos. Invadiu-a uma febre de construção, alastrando-se não só pelas zonas recentemente abertas como enchendo os claros do centro urbano.”
“O comércio acompanhou este movimento geral, tomando nele os italianos assinalado relevo: padarias, barbearias, açougues, fábricas de macarrão e de cerveja, casas comerciais de todos os ramos, oficinas de alfaiates, ferreiros, sapateiros – em todos os gêneros figuravam eles, e prosperavam.”

Tecelagem Enrico Dell"Acqua e Cia em construção - 1890

Em pouco tempo a população de São Roque aumentara, necessitando de novos serviços. Como conseqüência, outros italianos chegavam, convidados por parentes e amigos, às vezes provenientes da Itália; noutras, fugindo do trabalho escravo nas lavouras de café, para se estabelecer com seus negócios na pequena cidade cujo futuro lhes parecia promissor.

O progresso alcançado pela cidade com a abertura da fábrica de tecidos assemelhava-se ao da época do movimento das tropas arreadas, por volta de 1840, e ao da construção da estrada de ferro, iniciada em 1872. Em agradecimento pela instalação da tecelagem Enrico Dell’Acqua e Cia, a Câmara Municipal resolveu dar o nome do industrial à rua antes denominada Liberdade.
Contudo, a presença dos italianos em São Roque mexeria com os brios dos tradicionalistas mais ferrenhos, a ponto de se revelarem em conversas com amigos e parentes que vinham de outras cidades. O vigário da Matriz, por coincidência, era padre Pedro Gravina, italiano.

Silveira Santos registra em seu livro o desdém contido nos comentários dos conservadores:
- São Roque? Ah! São Roque agora virou colônia italiana!
- Pois é...  Se até o padre é italiano!...



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2 comentários:

  1. Oi Silvia, parabéns pelo Blog.. se vc tiver interesse de estampar algumas dessas fotos em camisetas escreva para meu e-mail m.exclusivo@bol.com.br estilizo as fotos e estampo ok? Um grande abraço e sucesso no Blog, pois está de muito bom gosto!

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    1. Obrigada! Seja sempre bem-vindo ao blog. A idéia das camisetas é muito boa. Agradeço o interesse.

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